Em 1832,D.Pedro IV conseguiu organizar um exército de sete mil e quinhentos homens,fiéis e partidários,dispostos a lutar pela liberdade,contra o regime absolutista que tiranizava Portugal sob as ordens do rei D. Miguel.
Este exército veio em navios e todos os homens embarcaram na ilha Terceira, nos Açores.
Tinham previsto desembarcar na foz do rio Ave,em Vila do Conde,mas o brigadeiro Cardoso, comandante das forças de D. Miguel,não consentiu.
Toda a esquadra de navios tomou o rumo do sul,junto à costa,quando um moço de bordo pediu umas falas ao rei,porque conhecia uma praia,um ancoradouro chamado "A Praia dos Ladrões" que ficava antes dos penedos de Leixões.
O rei confiou na informação do antigo salteador e ordenou:
- Sigam as ordens deste moço!
E assim as tropas desembarcaram em Pampelido,no areal da "Praia dos Ladrões".
Quando chegaram a terra, o rei mandou montar uma guarda de honra de vistosos estandartes em redor do heróico moço.
D. Pedro e o seu estado-maior,os seus oficiais,pernoitaram em Pedras Rubras e, mais ou menos,foi aí que se passou o episódio das "fanecas com três fff...ou quatro".
Conta-se que um oficial entrou numa taberna e perguntou o que se podia arranjar para comer.Respondeu-lhe o taberneiro que só tinha peixe dos três fff. O oficial de grande bigode,bem quis decifrar o significado de cada um dos fff,mas não conseguiu.
Embasbacado,o taberneiro atalhou:
- Fanecas,frescas e fritas...
Sorriu o oficial,encomendou o petisco,comeu regaladamente,mas quando acabou,virou-se zombador e divertido para o bom homem,vermelhudo e gorducho:
- Ó taberneiro! Acrescenta mais um f à tua receita,meu amigo,porque eu não trouxe dinheiro! Doravante chamas-lhes fanecas,fritas,frescas e...fiadas.
Por aquela situação nunca tinha passado o reconchudo taberneiro.Ficou furioso pelo abuso (deram-lhe uns fornicoques...) mas medroso, e não querendo irritar o espampanante oficial - com humor, mal disfarçado - aconselhou-o a pagar quando por ali passasse outra vez.Por ele e pela sua noiva, que espreitava por trás do balcão dos pipos de vinho,tudo acabava em bem e sem mais "gabarolices".
No terreiro,à porta da venda,autoritário e garboso do alto do seu cavalo,atalhou o oficial,agradecendo:
"Obrigado,mas não tenciono tornar a passar por aqui (...) dado que estás para casar,aqui tens duas peças de ouro para comprares uns brincos para a tua noiva.Adeus !" E foi-se, a galope, o brilhante cavaleiro.
No dia seguinte,as tropas de D.Pedro iniciaram a sua marcha em direcção à cidade do Porto.
O taberneiro e a sua noiva,arregalados do olhar,viram o cortejo e bonito cenário passar-lhes à porta.Assistiam ao desfile,quando descobriram que o oficial das fanecas tinha em seu redor outros militares que o tratavam muito bem, com toda a solenidade, cortesia e salamaleques.Muito mais admirado ficou o taberneiro,quando soube que o oficial era o próprio rei D. Pedro IV.
A partir desse dia,e em sua honra,as fanecas da sua taberna passaram a ter a chancela e o dito jocoso do rei: - "fanecas,fritas,frescas e ...fiadas"!
[via A. Cunha e Silva - Alfredo Barros, Lendário de Matosinhos]
